Inclusão digital com software proprietário incentiva a pirataria

Inclusão digital

Tenho uma opinião em relação ao uso de softwares proprietários para inclusão digital que alguns talvez considerem que eu seja xiita, ou que esteja cegamente defendendo o uso de softwares livres, mas que para mim é um pensamento bastante natural.

Quem é o público alvo das campanhas de inclusão digital? Visando qual setor da sociedade as prefeituras e governos estaduais e federal criam telecentros? Eu já trabalhei em um laboratório de inclusão digital, e convivia diariamente com pessoas de classe baixa, de bairros carentes, que não tinham computador em casa e iam aos sábados e aos domingos até o laboratório para acessar o Orkut e jogar os seus joguinhos online.

Mantendo ou trabalhando em telecentros, as pessoas devem ter muita responsabilidade (e paciência😉, pois estamos permitindo que muitos tenham os primeiros contatos com computadores, com programas e com a Internet, e tudo o que for passado nesses primeiros contatos vão marcá-las muito. O que aconteceria se ensinarmos, ou passarmos essa idéia, que sistema operacional é igual a Windows? E que editor de texto se chama Word? Elas só vão querer utilizar tais ferramentas, pois foi com elas que tudo foi aprendido.

As pessoas carentes, graças à política de inclusão digital do Governo Federal, estão tendo a possibilidade de comprarem, parcelando em não sei quantas vezes, seus primeiros computadores. Tudo isso com muito esforço.

Bom, tendo o computador em casa, agora é só usar! “Cade o botão Iniciar? E a internet, aquele botãozinho azul? Nossa, se eu já tive dificuldade em aprender com aquele outro sistema, imagina com esse tal de Linux que veio instalado. Vou ligar pro meu sobrinho que entende de informática para vir instalar o Windows aqui.” Alguém duvida desse cenário? Eu não só acredito, como já vi e já me ligaram diversas vezes para isso.

Pessoal, será que pessoas carentes terão dinheiro para comprar uma licença do Windows? Ou uma licença para o MS Office? Ou irão piratear ambos? E de quebra, “Tia, eu tenho o Photoshop aqui para você recortar as fotos. Quer que eu instale?”. Todos nós não só já sabemos a resposta, como convivemos com essa realidade.

E é por isso que eu afirmo que realizar inclusão digital com software proprietário é incentivar a pirataria. Os governantes sabem, ou deveriam saber, da responsabilidade que têm ao dar a primeira oportunidade para muitas pessoas utilizarem um computador.

Concordam com essa opinião? Vêem algum furo nesse pensamento?

22 Responses to “Inclusão digital com software proprietário incentiva a pirataria”


  1. 1 marcos domingo, 6 janeiro, 2008 às 11:22

    Muito bom João, parabéns. Abraço.

  2. 2 Marcos Silva domingo, 6 janeiro, 2008 às 7:33

    Concordo totalmente com você, João.

    E o governo além de incentivar a pirataria pode estar criando uma legião de “dependentes” de softwares proprietários, algo danoso em diversos sentidos à sociedade, ao usuário e, também, às empresas desenvolvedoras.

    O cara que, como você citou, pensa que “a internet é o Internet Explorer” jamais vai se sentir motivado a procurar uma outra solução, pois em se tratando do usuário iniciante e que não tem muitas pretensões quanto ao uso da máquina, infelizmente o comodismo é grande.

  3. 3 Danilo segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 1:07

    Infelizmente esta é exatamente a estratégia dos programas proprietários.

    Me dá uma dor terrível quando escuto pessoas desesperadas falando, “eu quero o Nero”, ou “eu quero o Photoshop”, “tem a senha do Corel?”. O jogo de marketing é tão forte que quase não se escuta falar em “editor de texto”, “editor de imagens”, …

  4. 4 rics segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 8:39

    Eu concordo contigo, mas essa pirataria não é prejudicial à indústria de software, muito pelo contrário. Imagina que 90% das pessoas que utilizam computador tenham windows e photoshop pirata em casa. Quando elas forem abrir uma empresa, ou quando forem procurar trabalho, vão atrás de coisas que usem esses softwares.

    Aí a MS e a Adobe caem matando em cima dessas empresas. É aí que elas vão ganhar dinheiro.

    Assim, tudo isso não tira a razão do seu texto. Acho que você está corretíssimo e também concordo que estas iniciativas deveriam ser em cima de soluções livres. Concordo 100% com os motivos que você colocou, mas acho que enquanto a situação estiver interessante para estas empresas a situação não vai mudar não.

  5. 5 João Olavo Vasconcelos segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 8:51

    rics, pelo menos as grandes empresas ficam aliviadas quanto pirateamos seus produtos e não vamos atrás de outras soluções.

    Mas os governos não podem concordar com a pirataria. É perda de receita; eles deixam de arracadar com impostos.

    O que será que vem mais forte: o lobby das grandes ou a perda de receita? Humm… dinheiro dos impostos vão, a princípio, para o povo. Dinheiro dos lobistas… enfim. Policiemos! =)

  6. 6 JotaEle segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 9:13

    E depois que se está viciado é difícil largar o vício.

  7. 7 Cesar Avalos segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 11:15

    Ótimo post, sempre é bom fortalecer esses argumentos para o SL.Soh esqueceu de falar sobre a política de traficante da MS..

    Valew

  8. 8 Zorzo segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 2:46

    Excelente artigo! Moro no Estado de São Paulo mas tenho acompanhado o grande trabalho realizado pela Celepar, no Paraná. Os telecentros de lá usam SL e também vários órgãos governamentais. Fazem um trabalho de divulgação em software livre que é um show, com muito profissionalismo!
    Aqui em São Paulo, já vi (com muita revolta!) propaganda do governo estadual dizendo ter criado “o maior plano de inclusão digital do país” (o acessa São Paulo). Que me perdoem os que trabalham no “acessa São Paulo”, mas o que fazem lá é um esboço, um rascunho muito mal copiado de um verdadeiro projeto de inclusão digital. Digo isto pelo que vi do projeto onde moro, no interior do Estado. Funciona apenas no centro da cidade e NUNCA nos fins de semana.
    Fica uma sugestão: que tal um trabalho de incentivo às pequenas empresas para migrarem para software livre? Com certeza, tudo que precisam nesta área será possível obter em SL, tirando-as da ilegalidade.

    Um abraço.

  9. 9 Rodrigo Flores segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 3:24

    Post bem legal. Concordo com suas idéias.

    Abraços

  10. 10 Zed segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 3:32

    Concordo com a sua idéia sobre software proprietário em telecentros.
    Mas, usando uma visão mais simplista, qual é a diferença entre essas pessoas usando softwares livres ou softwares piratas?
    Em ambos os casos não será gerado receita. A não ser que na segunda opção, o usuário de softwares proprietários incentive o uso destes em ambiente corporativo, aonde temos uma fiscalização mais “assídua”.
    O próprio usuário de softwares proprietários provavelmente irá encontrar mais oportunidades de emprego sabendo Windows e MSOffice do que Linux e OpenOffice. Os usuários em relação a lazer, usam Windows devido aos jogos, MSN e alguns outros softwares que tem um marketing melhor.
    Infelizmente a realidade é esta, e para muda-la, temos que conscientizar o usuário de que ele pode mudar a sua realidade tendo uma maior participação na comunidade de software livre, assim deixando de ser um consumidor passivo.

    E quem vai acordar o usuário para esta realidade?
    O governo? O tiu Bill? O pessoal do Ubuntu?

  11. 11 Hugo segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 4:07

    Caros, essa é a cara do Governo do Estado de São Paulo…A idéia deles é que, quando se usa software proprietário, o governo arrecada impostos.. mais, esquece que os royalty vão todos lá para foram.. e quem ficou com o conhecimento técnico do que foi executado, todo conhecimento na confecção/desenvolvimento é dos técnicos lá de fora, nós passamos a ser uns meros apertadores de potões, e detalhe: só apertamos o que eles deixam..
    Quando se usa software livre, o conhecimento, as experiências, tudo passa a ser de conhecimento público, pois cobras-se somente pela a execução/implantação do projeto e mesmo assim a experiência torna-se pública…. O que incomoda é que, quando muda-se de governo (no caso de SP, a equipa da Marta implantou os Telecentro usando SF, o que viabilizou o projeto), o próximo, não quer saber de dar continuidade a um caso de sucesso do governo anterior e, por pura questão política ou incompetência, resolvem migrar para software proprietário, pois para eles é muito mais fácil toda a vez quer der pau acionar o contrato select, mesmo que custe uma fortuna, a responsabilidade para o gerente de TI sempre será M$ ao passo que, se fosse SF, seria mais fácil analisar os logs e resolver os problemas. O que precisa é mudar a cabeça dos gerente de TI que tem suas salas recheada de certificados da Microsoft e que não podem alterar uma linha do código dos produtos que adquiriram e continuam a merce da boa vontade deles para disponibilizarem os famigerados ServiPack que corrige de um lado e estraga do outro. Consultem a lista de falhas da M$ e vejam o tempo que levam para remendar os buracos.. (a propósito, o Debian disponibiliza correções em menos de 23:00hs). Vejam o Caso do Ministério da Cidades na gestão do ex-governador do Rio Grande do Sul, Olivio Dutra, adotou-se GNU como plataforma de SO e na mudança de gestão, comprou-se licenças geral para fazer o que vinha sendo feito com SL.. por isso caros, a questão é bem complexa pois envolve decisões: governamentais, políticas, adesões por parte dos gerentes de TI.

  12. 12 Flávio Augusto segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 4:57

    Eu também concordo.

    De longa data foi criada uma cultura de que iniciação à Informática se faz com software proprietário. É claro que isso não é verdade. Hoje existem bons programas livres para inclusão digital (sem falar no Ubuntu, claro) que são um bom começo para quem quer aprender a usar o computador.

    O artigo está ótimo. Parabéns!

  13. 13 Kirk segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 5:20

    Parabéns pelo artigo, mas infelizmente alguns de nossos governantes fazem parte do jogo, afinal quem vai financiar as campanhas deles.
    E para as empresas de software, interessa que os futuros cidadãos da inclusão digital sejam “viciados” nos seus softwares piratas ou não.

  14. 14 Fabiano S. Coelho segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 8:21

    Interessante seu ponto de vista, mas vale lembrar que esta não é a preocupação da empresa que está fornecendo o software nem o maior dos problemas.

    Como disseram acima a pirataria é ruim para o governo que não arrecada impostos, mas quando falamos de uma população inteira sendo educada sobre com um software fornecido por uma única empresa essa questão é irrelevante para ela.

    É condicionando as pessoas a usarem seu sofware desde criança que a Microsoft vai garantir seu futuro. Afinal serão estes os trabalhadores de amanhã, que estarão nas empresas que pagam por seus produtos e serviços.

    Projetos como este deveriam se fundamentar em padrões abertos com suporte 100% fornecido por empresas nacionais.

  15. 15 Epassos segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 8:25

    Sei que vou ser linchado aqui mas vou deixar minha opinião. Não creio que o uso de softwares proprietários em programas de inclusão digital incentive a pirataria.

    O assunto é muito mais complexo que isso, é uma questão cultural. O uso de software livre também incentiva a pirataria, se for pensar por este prisma. É só ver os computadores que são vendidos em grandes redes varejistas com Linux. O cara compra e no dia seguinte esta formatando e colocando o Windows Pirata.

    Não adianta querer defender o Linux mas ele ainda não é tão simples de ser usado pelo usuário comum( Não pense que sou fanboy da MS ).

    Também não pense, que pelo meu comentário, sou contra o uso de softwares livres nestes programas ou que não gosto do Linux. Ao contrário, também uso o linux no meu desktop.

    Só que na minha visão a pirataria ocorre mais por uma série de fatores como baixo poder aquisitivo da população, altos impostos, questão cultural, baixa fiscalização por parte do governo. E isso não é só com software.

  16. 16 Alexandre Oliva segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 10:58

    > Não adianta querer defender o Linux mas ele ainda não é tão simples de ser usado pelo usuário comum

    Em “usuário comum” leia-se “usuário que aprendeu a usar computador com MS-Windows”.

    Compare o número de computadores “sem marca” que vêm sem sistema operacional e acabam rodando uma cópia não autorizada de MS-Windows (95%) com os que vêm com sistema operacional GNU/Linux pré-instalado e acabam rodando uma cópia não autorizada de MS-Windows (75%).

    Considere ainda que uma porção de gente se aproveita do financiamento para comprar o computador já com a intenção de substituir o sistema operacional pelo que já conhece (seja MS-Windows, seja outra distro de GNU/Linux)

    Considere ainda que fornecedores do Computador para Todos são pouquíssimo responsabilizados pelos defeitos do software que eles mesmos escolhem para instalar, que funciona bem em raras exceções.

    E, apesar disso tudo, a taxa de retenção ainda é 5 vezes maior.

    Fantástico, não?

    Já faz tempo que, com software proprietário, Inclusão Digital se limita ao sentido proctológico do termo, pois o sujeito acaba tendo de escolher, depois, entre pagar o “imposto” do MS-Windows, correr o risco de usar cópia não autorizada ou aprender um sistema diferente.

    Se for com Software Livre, o sujeito não só aprende algo que vai poder usar onde quiser, como ainda pode aprender a chegar muito mais longe, se quiser.

  17. 17 Tiago Samuel terça-feira, 8 janeiro, 2008 às 8:57

    Concordo com o artigo. Quero citar apenas um exemplo que pode não refletir a realidade da maioria, mas aconteceu comigo. Quando minha mãe aprendeu a dirigir o primeiro contato que ela teve com carro na auto-escola foi em um corsa. Advinhem qual foi o primeiro carro que ela comprou zero quilômetro? Em seguida quando saiu a nova versão novamente optou pelo mesmo automóvel. Hoje passados 10 anos ela talvez queira outro modelo mas o exemplo serve para ilustrar o problema do software proprietário nos telecentros. Quando as pessoas teêm contato com algo novo, aquilo vira referência para elas. Se os recém-incluídos-digitais saírem dos telecentros querendo usar Windows, simplesmente eles irão buscar os meios necessários para obterem aquilo que lhes parece mais confortável e claro pensando que por que havia usado no telecentro então o negócio é popular (subentende-se barato). Com a convergência das aplicações para web eu torço para que no futuro a escolha do SO venha em segundo plano. Mas enquanto isso não acontece o governo precisa arregaçar as mangas para fazer do Linux uma bandeira da democracia tecnológica.

  18. 18 Epassos terça-feira, 8 janeiro, 2008 às 9:32

    Prezado Alexandre,

    Só por uma questão de curiosidade e aprendizado. De onde você tirou os números que você expôs em seu comentário?

  19. 19 Austragésilo terça-feira, 8 janeiro, 2008 às 2:31

    Não vejo conexão lógica entre aprender informática em software proprietário e pirataria. As pessoas “carentes” querem Windows e Word porque é isso que vão encontrar no escritório em que querem trabalhar. O que adianta entender tudo de software livre se ele não é usado no mundo do trabalho?
    Também não vejo razão para ser paternalista com as pessoas “carentes” como se elas não tivessem entendimento suficiente para decidir o que é bom para elas mesmas.


  1. 1 João Olavo: Inclusão digital com software proprietário incentiva a pirataria « Flávio Augusto Trackback em segunda-feira, 7 janeiro, 2008 às 5:08
  2. 2 Quem são as pessoas que utilizam software pirata: pessoas de “má fé” ou excluídos socialmente??? « Software Livre e Pirataria, EDS UFABC Trackback em sábado, 6 março, 2010 às 7:58

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